Sempre gostei mais da Ella Fitzgerald do que da Billie Holiday como cantora de jazz. A música da Ella é mais viva, mais alegre; a Billie Holiday, em contrapartida, tem aquele tom quase sempre depressivo, uma voz arrastada. Essa diferença pra mim é muito clara quando elas cantam uma música especialmente: The Man I Love. Na minha opinião, uma das melhores músicas de todos os tempos. Muitos já me ouviram fazer essa comparação, mas aí vai de novo: enquanto a Ella Fitzerald canta com a convicção de que “The Man I Love” vai bater na porta dela quando a música acabar, a Billie Holiday canta com a certeza de que ele nunca vai aparecer.
Com essa contraposição entre pessimismo e otimismo em mente, estava conversando com uma amiga essa madrugada sobre como somos conscientes de que não existe “happily ever after”. Ok. No big news here. Mas sobre o que falávamos exatamente era sobre o momento imediatamente anterior ao happily ever after. Tão imediatamente anterior que é quase o happily ever after em si. Quando tudo está ali. E tudo está certo. Não há perhaps. Há apenas aquela vontade de que o momento dure pra sempre, de que a pessoa nunca vá embora. E nada no mundo pode estragar aqueles minutos, horas, dias.
Claro que estamos falando de vida real e que mais cedou ou mais tarde os problemas aparecem. Mas, de novo, não é esse o ponto. Tenho um texto antigo em que falo todas as coisas que quero em um namorado. Todas as milhares de coisas. Algumas amigas brincam que com todas aquelas exigências eu vou morrer solteira, o que seria bem possível se tudo aquilo não se resumisse em alguém que, “quando eu seus braços, eu não queira mais nada dessa vida”. Era o que eu sempre respondia. Hoje, contudo, percebi que estava explicando a coisa errada e que devo ser mais específica sobre essa sensação de “não querer mais nada dessa vida”.
É possível que as pessoas confundam esse momento em que não se quer mais nada com o momento anterior ao happily ever after. Devo dizer, realmente, que são sensações bem parecidas, mas que têm uma diferença fundamental. O não querer mais nada da vida é efêmero. Okay. O outro também é. Mas o momento happily ever after não é um efêmero que sabemos que acabará tão logo a pessoa vá embora, é um efêmero que pode ser eterno. Apesar de sabermos que não o será, não há naquela situação algo que indique claramente que o eterno não é possível além do nosso ceticismo.
Voltando ao que quero num namorado, se os momentos quando não quero mais nada da vida eram realmente o que eu queria, não sei porque reclamava tanto. Não são raros esses momentos na minha vida, quando duas horas passam em dois minutos. Nesse fim-de-semana mesmo aconteceu. O problema, que é diferença que antes eu não via, era que os momentos sempre vinham carregados da certeza de que acabariam tão logo a pessoa saísse pela porta. Não sei por que eu me contentava com aquilo. Era o cara com namorada, que não morava na cidade ou que estava indo embora. Em resumo, é muito bom, é dreaming, mas não vai dar certo anyway. É uma sensação bem traiçoeira, porque na hora a gente não percebe a diferença entre o não querer mais nada da vida e o happily ever after. As sensações são iguais. A música é a mesma. O problema é quando quem canta é a Billie Holiday.
Essa mudança de percepção, eu sei, will not make things any easier. Minhas amigas vão continuar dizendo que eu vou morrer solteira, certamente. Mas, de qualquer jeito, acho mesmo que vou mudar o final do meu texto sobre o namorado perfeito e escrever que quero alguém com quem possa me sentir happily ever after, mesmo que o happily ever after seja o presente e que não dure mais do que alguns segundos.